O primeiro dia de aula é inesquecível.
Eu não estava com medo do que poderia acontecer comigo, mas temi pelos meninos. Apesar de não merecerem, porque eram umas pestes, porém no fundo eu sabia que eles não tinham a menor noção do que era a vida militar; a disciplina e principalmente o que eram "regras". Enquanto eu analisava a situação, Flayner entrava na sala comum acompanhando um homem com um uniforme impecavelmente alinhado, a calça e o sobretudo eram marrom-escuro combinava enquanto a camisa e o cinturão estavam em dois tons mais claros. Por um instante baixei os olhos ao chão e o brilho das botas me fez lembrar do motivo daquele caos: BOTAS! Levantei os olhos e decidida a explicar toda a situação olhei direto para seu rosto. Foi terrível! Nunca senti algo assim. Fiquei muda, mais rígida do que já estava. O homem que eu vira na noite anterior contemplando o jardim, era ele. De noite e de longe, eu já achei ele lindo, mas ali, com tanta luz e de tão perto parecia que estava tendo uma visão de um anjo. Seus cabelos eram de um loiro bem discreto, médio, os olhos eram azuis, a pele branca sem marcas, ele parecia ter mais ou menos um metro e oitenta ou um e noventa. O corpo de um verdadeiro soldado, forte com tudo no seu devido lugar. Não podia ser pior, ser sequestrada do meu planeta, colocada em um centro de treinamento de guerra e ter como mestre uma versão extraterrestre do Brad Pit! Não dá!
- Alguém pode me explicar o que aconteceu neste alojamento? - falou o homem andando lentamente entre os escombros da sala - o silêncio persistiu e ele novamente perguntou - Vou perguntar só mais uma vez, alguém pode me explicar o que aconteceu aqui? - e ao terminar a frase parou encarando Danieuls. O menino amedrontado se esquivou para o canto da parede, o mestre se abaixou e levou a mão em seu rosto tocando suavemente como se quisesse retirar algo.
- O que é isso? - perguntou ao se levantar mostrando a mão suja com um pigmento vermelho.
- Não sei - respondeu Danieuls - quase chorando.
- Como não sabe? - Está em seu rosto e você não sabe? - perguntou o homem energicamente.
- É baton, senhor. - respondi as pressas e fazendo posse de militar. Ele se virou para ver de onde vinha a voz e olhando para mim com um jeito debochado falou.
- Que bom que conhece as normas básicas de" sim senhor"e "não senhor", porém eu estava falando com ele não que você Havenna Paravell - falou com toda a autoridade do mundo - fui claro? - perguntou.
- Sim, senhor - respondi.
- Então, onde estávamos antes de sermos interrompidos? - perguntou olhando para Flayner que até então não tinha se manifestado.
- O senhor estava analisando as manchas no rosto do menino Danieuls - falou a moça - Neitan então analisou toda a sala com uma única olhadela e logo perguntou.
- Porque tenho a impressão que o quarto de vocês três deve estar igual ou pior a essa sala e que o seu quarto Havenna deve estar intacto - ao se virar ele pegou o estojo de maquiagem no chão todo quebrado e jogo-o novamente de lado, esbarrou o bico da bota em um dos bandejões do refeitório, parecia que a qualquer hora ele perderia a paciência mas não, sua frieza era o que diríamos na Terra: "siberiana'.
- Meu nome é Neitan Donazant, eu e mais três guardiões seremos seus mestres a partir de hoje, os outros se alternaram entre as disciplinas, mas eu terei a honra de acompanhar vocês durante todo o dia, a semana inteira, o ano inteiro, nos próximos doze anos. Agora que fui devidamente apresentado quero explicações e vamos começar bem do inicio, que deve ter sido por volta das onze horas da noite, que foi a hora em que eu ouvi um barulho vindo daqui - parou e olhou todos um por um.
- Eu os deixei por volta das dez horas depois que Mestre Kanji os liberou da detenção, pedi que o jantar fosse servido no alojamento já que estavam a muito tempo sem comer, depois fui embora - explicou Flayner.
- Certo! E depois? - perguntou. Durante um tempo os meninos se negaram a falar, o silêncio fazia que Neitan olhasse fundo nos olhos de cada um, isso incomodava muito. Parecia que uma luz azul saia de dentro deles e invadia a mente e alma da gente, até que o silêncio foi quebrado.
- Eu peguei os bolinhos do Yohann e ele me jogou purê na cara - respondeu Arms.
- Mas não acertou nele, acertou em mim - disse Danieuls - eu já tinha comido tudo e não havia nada pra jogar, então eu vi um pote de creme e joguei nele - falou o menino gesticulando como se tudo fosse uma festa.
- Uma guerra de comida e cremes - concluiu o mestre olhando para os meninos - mas e as mãos desenhadas nas paredes e os rabiscos? -
porque fizeram essas coisas? - perguntou olhando para as mãos desenhadas nas paredes.
- Depois de um tempo a guerra ficou chata e resolvemos desenhar - respondeu Yohann.
- Nas paredes e no sofá? - perguntou o mestre.
- E na cara do Danieuls - falou Arms rindo .
- Seu idiota - disse Danieuls avançando em cima de Arms.
- Meninos parem - disse Flayner.
- Parem!! - uma única palavra e tudo ficou quieto - Você! - falou apontando para mim - Onde estava durante todo este tempo? - perguntou alto mais sem se alterar.
- No meu quarto, senhor. - respondi imediatamente.
- E porque não interveio? - perguntou.
- Não percebi o que estavam fazendo, pra mim estavam apenas brincando, além do mais não tenho nada haver com o que eles fazem ou não - respondi.
- Você é a líder desta equipe e tem a obrigação de orientá-los - falou o mestre.
- Como assim líder? O que me deu o posto, senhor? - perguntei.
- Quantos anos você tem?- ele deu uma pausa na fala e depois voltou a falar - Mesmo que sua data de nascimento seja desconhecida , você tem o que aqui em Derioth chamamos de maior idade ou seja, você tem mais de 17 anos, então você é a líder - falou.
- Eu não pedi para ser, senhor - falei quase querendo fazer ele engolir o s.e.n.h.o.r.
- É e eu também não pedi para ser seu mestre. Vamos ter que conviver com isso pelos próximos doze anos e agora você poderia me dizer a sua versão do fato, tirando lógico a parte que eu já sei. - falou isso e passou perto de mim como se estivesse querendo dizer algo mais.
- E qual é a parte que o senhor já sabe, senhor? - perguntei tentando encontrar a resposta para aquela atitude suspeita.
- A parte em que você está na sacada do seu quarto, usando um shortinho preto, um top da mesma cor, apreciando a paisagem, enquanto seus colegas destruíam o alojamento. E não me venha dizer que não ouviu porque eu ouvi, por isso entrei para o meu quarto e fui até o setor de segurança ver o que estava acontecendo.
- Então o senhor sabia o que eles estavam fazendo? - perguntei injuriada.
- Não, eu não sabia. Os alojamentos não possuem câmeras de vídeo e muito menos escutas, isto é extremamente proibido - falou e depois que percebeu que estava me dando uma justificativa mudou completamente de assunto - agora comece me dizendo porque estas coisas estavam na sala comum e não em seu quarto - falou mostrando as maquiagens.
- Isso foi culpa minha senhor - interferiu Flayner - pedi para o serviço de entrega do shopping deixar as compras na recepção e quando fui pegar os meninos na detenção aproveitei e trouxe-os comigo. Pensei que Havenna poderia precisar de algo, mas ela estava dormindo e eu tive que deixar na sala, pensei errado.- disse a moça abaixando a cabeça.
- Resolvido. - disse olhando para as maquiagens - Os bandejões também já foram explicados - só falta uma coisa - falou levantando a mão para o ar - Cheguei aqui as seis horas e vocês sabiam disso, porque não estavam prontos? - perguntou.
- Eu estava, senhor. - respondi - quando abri a porta e vi a bagunça fui até o quarto e como o senhor mesmo já imaginou ele está pior do que aqui - o mestre fez uma cara nada agradável e saiu em direção ao quarto e nós o acompanhamos. No quarto dos meninos o cenário era de guerra civil, e mestre Neitan estava tentando juntar as peças que levaram a sua eclosão.
- Onde eles estavam quando você chegou aqui? - perguntou - o que estavam fazendo? - falou novamente tentando entender e se livrar de umas coisas que tinham embaraçado em suas pernas.
- Dois deles estavam aqui dentro e um estava lá fora na sacada. - falei apontando para a varanda.
- Quem? E o que ele fazia lá? - perguntou.
- Eu! - respondeu Arms - eu dormi lá fora - disse sem muita cerimônia.
- Porque? - perguntou.
- Eles me trancaram lá - disse apontando para Yohann e Danielus. - os meninos fizeram aquela carinha de desentendidos.
- Porque fizeram isso com ele? - perguntou o mestre já coçando a cabeça em sinal de nervosismo.
- Esse idiota pegou minhas botas e não quis devolver, então ... - Arms parou de falar com medo de ser repreendido.
- Então o quê? Vamos Arms o que aconteceu? - insistiu o mestre.
- Ele quase enfiou minha cabeça no sanitário, só não o fez porque o Danieuls não deixou - disse Yohann.
- Aí vocês começaram a brigar e resolveram jogar o Arms para fora do alojamento? - perguntou o mestre.
- Isso depois que eu fiz eles se ajoelharem de tanta pancada - falou o menino rindo.
- Já chega! Vocês conseguiram. Entraram para a história como a primeira turma desta escola que nem sequer saiu do alojamento no primeiro dia de aula e conseguiu uma detenção de trinta dias - disse saindo do quarto. - Flayner? - falou parando na porta de entrada da sala comum - quero que designe dois guardas para auxiliar nossos calouros, a reforma e limpeza da bagunça do que fizeram, é problema deles. - ele já tinha saído mas voltou - E só para não ficar nada sem explicação: você Havenna é a líder, portanto, você também está em detenção e também vai ficar de castigo na limpeza e reforma do alojamento. Quero tudo do jeito que era antes e fique atenta aos uniformes. - ele saiu e o ar ficou pesado muito pesado.
Eu olhava para o alojamento e queria sumir, enfrentar guerras, passar por barreiras e fugir em meio a bombardeios não é tão difícil, pois do outro lado sempre há algo que se procura: glória pela missão cumprida, pelo dever e pela honra de seu povo. Mas ali, não havia nada para mim no final daquela guerra, não havia premio, nem mesmo um objetivo. Sobreviver, estava sempre em segundo lugar, primeiro era cumprir a missão, mesmo que morre para que um companheiro terminasse fosse o objetivo.
Algo poderia acontecer para me dar um motivo e aí sim, mestre Neitan teria sérios problemas em suas mãos.